Neutrino
O espectador é condutor e passageiro da experiência.
O Trem. Peso atribuído. Ameaça e transporte. A bolha plana.
Fragilidade e suporte. Janelas. Passagem.
Neutrino é uma experiência sobre atribuição de peso. Atribuição de significado. E sobre o papel constituinte do espectador na construção da realidade. Interação.
Na vídeo-instalação, o vídeo passa ininterruptamente. E a imagem só é visível com o surgimento do suporte, provocado pelo espectador. Imagem refletida na bolha plana, que a sustenta apenas enquanto dura a tensão da película de água. Contentamento e frustração. Mas podemos refazer o percurso. Ainda que a imagem seja outra. E o suporte também.
No vídeo, o trem em planos e movimentos variados.
Na bolha plana observamos a transformação do suporte. O movimento de aparente desordenação nas partículas do líquido evidencia as cores surgidas no processo de refração da luz. A medida que o tempo passa, as cores desaparecem. E o preto e branco anuncia o rompimento da bolha plana. Percebemos a relação entre a imagem, suporte e espectador.
Nas fotografias, a aparente fixação do tempo. Imagem transformada a partir do movimento. O tempo, o transporte, o movimento, o peso. Significados atribuídos. E ressignificando a experiência com a junção fotográfica do tempo e do espaço. No tempo, o encontro do movimento do suporte com o movimento da imagem. No espaço pela junção fotográfica do plano físico da bolha e do plano da imagem refletida, imagem virtual no sentido ótico, refletida no suporte mas distante pelo nosso olhar.
Tempo e espaço relacionados pelo aparato fotográfico, constituindo nova realidade.
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"Neutrino" é termo científico que nomeia talvez a mais etérea partícula constituinte da matéria. Uma partícula invisível e muito difícil de detectar, que a física contemporânea atribui massa quase nula e velocidade praticamente igual à da luz. Prevista nos anos 30 do século passado, só foi confirmada em 1956.
Partículas que vêm do espaço e do Sol e que atravessam nossos corpos a todo instante sem que o percebamos, sem sofrer desvios, como se a Terra fosse transparente. Mas, eventualmente, um neutrino interage e deixa um vestígio. Assim diz o prof. Dr. Ernst W. Hamburger, do IFUSP:
“... A existência do neutrino foi inferida indiretamente: quando um átomo radioativo sofre desintegração beta, emitindo um elétron, ele emite simultaneamente um neutrino, o que causa um pequeno recuo do elétron e do núcleo que desintegrou: esse recuo é que é percebido. O neutrino quase não exerce força sobre outros corpos, e também por isso ele atravessa facilmente grossas camadas de matéria. Por exemplo, o nosso planeta Terra é bombardeado continuamente por milhões de neutrinos provenientes do Sol e de outras estrelas. A grande maioria desses neutrinos atravessa a Terra toda – vegetação, casas, montanhas, mares e todo o volume interno da Terra – sem sofrer nenhum desvio, como se a Terra não existisse, como se fosse transparente, e sai do lado oposto, continua sua trajetória pelo espaço. Cada um de nós está sendo atravessado, a cada segundo , por muitos neutrinos, que não afetam em nada o funcionamento de nosso corpo. Aliás, a humanidade convive com o bombardeio de neutrinos e de outras partículas, chamadas raios cósmicos, desde que surgiu no planeta. Só poucos dos neutrinos que chegam na Terra, e sofrem colisão com um dos átomos terrestres, produzem outras partículas e tem sua trajetória interrompida.”
Ainda que não conheça a física em profundidade, me intriga a possibilidade da teoria – um sistema de representação criado pela ciência - prever e experenciar – através de aparatos complexos - a existência de uma partícula que nos atravessa quase sem deixar vestígios. Que é eventualmente percebida por sua rara mas concreta interação. Uma espécie de memória da relação.
Nos ditos limites entre eu e o outro nos sobram as relações. As interações. E, fundamentalmente, as atribuições de nossa consciência. A partir da memória.